Afinal, para que serve a escrita? [luciana brandão]

Afinal, para que serve a escrita? [1]

Luciana Silviano Brandão Lopes

Uma tentativa de resposta


Será que há uma resposta para essa pergunta? Ou serão várias? Algumas frases, ou pequenos textos me vêem à cabeça. Para que possamos iniciar a nossa discussão acerca da função da escrita, cito Marguerite Duras:

Escrever
Não posso.
Ninguém pode.
É preciso dizer: não se pode.
E se escreve.
[2]

Se eu não tivesse escrito, teria me tornado uma alcoólatra incurável.
[3]

Escrever significa tentar saber aquilo que se escreveria se fôssemos escrever – só se pode saber depois - antes, é a pergunta mais perigosa que se pode fazer. Mas também a mais comum.
[4]

Leyla Perrone-Moysés:

Na sua gênese e na sua realização, a literatura aponta sempre para o que falta, no mundo e em nós. Ela empreende dizer as coisas como são, faltantes, ou como deveriam ser, completas. Trágica ou epifânica, negativa ou positiva, ela está sempre dizendo que o real não satisfaz.
[5]

Georges Bataille:

Escrevo para apagar o meu nome
[6].

E Roland Barthes:

(...) O que Proust conta, o que coloca em narrativa ( insistimos), não é a sua vida, é o SEU DESEJO DE ESCREVER: O Tempo pesa sobre este desejo, mantém-no numa cronologia; (...) para finalmente triunfar, quando o Narrador, chegando à recepção de Guermates, descobre o QUE DEVE ESCREVER: o Tempo reencontrado, e da mesma feita assegura-se de que vai poder escrever: a BUSCA (entretanto, já escrita).
[7]

A partir desses fragmentos, penso ser possível pensarmos que, mesmo a escrita estando na ordem do impossível, pois se escrever, não posso, ninguém pode, se escreve! E se escreve algumas vezes sob a égide do imperativo: “o livro está ali, e grita, exige ser terminado, exige que se escreva”.
[8]

A escrita, então, tem uma função, ainda que desempenhada de forma pouco satisfatória, apontando sempre para o que falta, ou seja, uns escrevem para não enlouquecer, outros para não se alcoolizarem de forma incurável, alguns para cederem ao seu desejo de escrever e existem ainda aqueles que escrevem para apagar o seu nome. Quer dizer, para alguns sujeitos a escrita é essencial, é algo que transcende ao simples ato de escrever um texto, colocar palavras no papel. Diante desses depoimentos, será que podemos nos perguntar se ela tem uma função curativa, uma função de mudança na posição subjetiva na vida daquele que escreve?

Considero Georges Bataille e sua História do Olho um exemplo paradigmático para tentar responder essa pergunta. Segundo Eliane Robert Moraes, até 1926 Bataille era um simples funcionário da Biblioteca Nacional e sua produção escrita se resumia em uma recriação de poemas medievais em francês moderno, intitulada Fatrasies. Ele tinha trinta anos naquela época e vivia uma vida absolutamente desregrada; por um lado, freqüentava bordéis e bares e por outro se via profundamente envolvido por questões filosóficas. Ele oscilava “entre a depressão e a excitação extrema”.
[9] A História do Olho surgiu por sugestão de seu psicanalista, Adrian Borel, durante um processo analítico “pouco ortodoxo”, segundo o próprio Bataille. A proposta era que ele escrevesse suas fantasias e obsessões de infância. A primeira tentativa de escrita resultou no livro W-C. Segundo ele, o fato de esse manuscrito ter sido queimado,“já que se tratava de uma literatura um tanto louca”, não significou propriamente uma perda, pois “considerando minha atual tristeza: era um grito de horror (horror de mim, não de minha devassidão, mas da cabeça de filósofo em que desde então...como é triste!)”[10].

A composição da História do Olho é que lhe possibilitou partir de uma ficção para a construção de uma teoria, isto é, a elaboração de O Erotismo. Segundo Eliane Robert Moraes, “A criação de História do Olho marcou o fim de um silêncio e o nascimento de um escritor”
[11].

Então é possível falar em cura?

Jesus Santiago, a partir do ensino da clínica do passe - que postula a redução do sintoma à letra que cifra o gozo do sujeito – faz, em texto publicado no Almanaque de Psicanálise e Saúde Mental n°8, uma articulação entre escrita e sintoma, tomando a obra de Jean Genet como exemplo, ele diz:

(...) a ficção “genetiana” não assume um valor sublimatório, mas sim, um valor de sintoma capaz de circunscrever as fronteiras de sua existência tanto quanto lhe permitir sustentá-las. Se, de um lado, ela instiga o seu gozo masoquista, de outro, ela o exorciza.
[12]

Nessa perspectiva, segundo ele, a obra pôde “tanto evidenciar a função de instrumento do sujeito gozo do Outro, como mostrar os caminhos de seu evitamento.”
[13]

Já Ana Maria Clark, em Revisitando o estilo: por uma travessia na escrita? pergunta-se se o estilo em psicanálise, que é resultado da travessia do fantasma no final de uma análise, não poderia ser relacionado com o estilo na literatura.

Para ela, o estilo “num sentido bastante estrito” seria o

(..) processo que comporta a verdade da travessia – a via mediante a qual a verdade mais oculta se manifesta. Em outros termos, (..) há depuração quando a escrita, ao abordar o gozo, ressalta um fracasso, sinaliza a perda do que está perdido, uma perda de gozo, enfim, e há depuração máxima, quando ela comporta uma travessia na escrita, travessia essa diferente da travessia do fantasma que ocorre no fim de uma análise.
[14]

Apesar de essa autora não fazer a correspondência da travessia da escrita literária com a travessia do fantasma que ocorre num tratamento analítico, ainda assim fico tentada a me perguntar se isso não seria possível.

Para tal empreitada, refiro-me a Badiou que partindo da noção de transposição de Mallarmé, afirma que “certas operações poéticas são formalmente idênticas a operações da cura analítica.”
[15] Se para Lacan, a análise é a elevação da impotência ao impossível, se a cura analítica é a passagem de um estado de impotência para uma experiência do real, e consequentemente, do impossível, para Badiou a transposição poética é “também uma passagem da impotência ao impossível, uma passagem, na língua”[16].

A idéia de Mallarmé de que “todo pensamento é uma vitória sobre a morte e que o poema não é um consolo, mas a chance de uma vitória” pode ser relacionada àquela sobre o que ocorre numa análise, ou seja, a análise também é uma vitória, vitória sobre o desaparecimento. Cito Badiou:

(...) nem a poesia de Mallarmé, nem a cura psicanalítica são operações de redenção. E por que não são operações de redenção? Porque o desaparecimento é absoluto. Tanto para Mallarmé, quanto para a análise, não haverá retorno daquilo que desapareceu, não haverá a redenção da perda. Haverá uma operação diferente, que construirá uma vitória sobre a perda, mas não o retorno daquilo que está perdido. E é por isso que não é nem uma consolação, nem uma redenção.
[17]

Mas aí, temos um problema: se o desaparecimento é absoluto, como fazer para obtermos uma vitória sobre ele? Como fazer surgir o impossível no lugar onde havia a impotência? A resposta de Mallarmé está na noção de transposição e para entendê-la devemos levar em consideração três coisas: 1) contra a impotência, o pensamento exige um encontro fortuito ou um evento; 2) mas, um evento pode desaparecer, portanto, para conseguir uma vitória sobre esse desaparecimento inicial é essencial um desaparecimento segundo, e é no poema que essa operação se dá; 3) o resultado disso tudo é uma criação afirmativa, ou seja, a transposição.

O que tornaria possível a transposição é que todo desaparecimento deixa um rastro, um vestígio e para Mallarmé “o trabalho poético é um trabalho sobre o “quase” e a vitória sobre a perda é, de início, unicamente a partir de vestígios.”
[18] Podemos dizer então, que essa lógica se assemelha à da psicanálise, pois “não se trata de modo algum de uma interpretação, trata-se de uma reorganização formal no âmbito da qual algo se repete: o próprio desaparecimento.”[19] É o desaparecimento que se repete, e não o objeto, e é por isso que nessa operação o que se obtém é o real.

Portanto, o objeto não volta, o que volta é seu desaparecimento sob a forma de desaparecimento dos vestígios. Podemos ver que a lógica de Mallarmé assemelha-se à lógica da análise: não se trata em nenhuma das duas de se fazer uma interpretação e sim de se fazer uma reorganização formal no âmbito do que se repete, ou seja, do próprio desaparecimento. “Se realmente é o desaparecimento que se repete, vocês não terão o objeto, mas terão o seu real, na prova de repetição de seu desaparecimento.”
[20]

Para Badiou, há uma capacidade criadora na própria repetição, e não se trata aqui de uma repetição natural, sem nenhum poder criador, e sim de uma repetição formal, artificial. Portanto, para sustentar esse trabalho, são necessárias duas hipóteses: 1) que todo desaparecimento deixe um vestígio, e 2) que exista um quadro formal para uma repetição criadora. Assim, torna-se possível uma vitória sobre a perda, ou seja, uma vitória sobre a impotência. E uma vitória sobre a impotência é a experiência do real. Algo, então é criado como um sujeito sobrenatural, um “sujeito de pensamento”.

A partir disso, podemos afirmar com o filósofo que, se há um “sujeito de pensamento”, se há vitória sobre a perda, há algo ali que não está mais no tempo, não no tempo natural, estamos, então, diante de algo da ordem do eterno. A poesia sempre almejou criar na língua algo que fosse eterno, e no caso da cura analítica, é possível estender-lhe essa ambição?

Conclusão

Difícil concluir uma pesquisa que para mim ainda se encontra em seus primórdios. No entanto, arrisco-me a pensar que por vezes a escrita, um tipo especial de escrita, pode propiciar ao sujeito que escreve uma mudança de posição em sua vida pessoal. Bataille e Marguerite Duras foram escritores para os quais a escrita foi fundamental, ora para ajudá-los a apagar seu nome, ora para livrá-los de um alcoolismo avassalador.

Bibliografia

ALMEIDA, Maria Inês de. Para que serve a escrita.SP: EDUC, 1997.
BADIOU, Alain. Por uma estética da cura analítica. In: BRANDÃO, Vera Maria Vinheiro (org). A psicanálise e seus discursos. RJ: Escola da Letra Freudiana, 2004.
BARTHES, Roland. O rumor da língua.SP: Martins Fontes, 2004.
BATAILLE, Georges. História do Olho.SP: Cosac Naify,2005.
DURAS, Marguerite. Escrever. RJ: Rocco,1994.
PERES, Ana Maria. Revisitando o estilo: por uma travessia na escrita?BH: FALE, 2001.
PERRONE-MOISES, Leyla. Flores na Escrivaninha. SP: Companhia das Letras, 1990.
SANTIAGO, Jesus. Colocar a psicanálise no cerne da política. Almanaque. A escrita em psicanálise, v.8. BH: Instituto de Psicanálise e Saúde Mental, nov. 2002.


[1] Este título é uma referência ao livro organizado por Maria Inês de Almeida, Para que serve a escrita?
[2] DURAS. Escrever, p. 47.
[3] DURAS. Escrever, p.21.
[4] DURAS. Escrever, p. 48.
[5] PERRONE-MOYSÉS. Flores da Escrivaninha, p. 104.
[6] BATAILLE. Prefácio da História do Olho, escrito por Eliane Robert Moraes.
[7] BARTHES. O Rumor da Língua, p.355.
[8] DURAS. Escrever, p. 21
[9] Moraes, Eliane. Um olho sem rosto, prefácio para História do Olho de Georges Bataille, 2003,Cosacnaify
[10] BATAILLE. A História do Olho. 2003, Cosacnaify.
[11] MORAES. Um olho sem rosto, prefácio para História do Olho de Georges Bataille, 2003,Cosacnaify.
[12] SANTIAGO. Colocar a psicanálise no cerne da política, In Almanaque n°8, p.12.
[13] SANTIAGO. Colocar a psicanálise no cerne da política, In Almanaque n°8, p.12.
[14] CLARK. Revisitando o estilo: por uma travessia na escrita?, p.78.
[15] BADIOU.Por uma estética da cura analítica, In: A psicanálise e seus discursos, p.237.
[16] BADIOU.Por uma estética da cura analítica, In: A psicanálise e seus discursos, p.237.
[17] BADIOU.Por uma estética da cura analítica, In: A psicanálise e seus discursos, p.240.
[18] BADIOU.Por uma estética da cura analítica, In: A psicanálise e seus discursos, p.241.
[19] BADIOU.Por uma estética da cura analítica, In: A psicanálise e seus discursos, p.241.
[20] BADIOU.Por uma estética da cura analítica, In: A psicanálise e seus discursos, p.241.

Um comentário:

Thaís disse...

Há muitas e muito poucas palavras. Por exemplo: pegamos um corpo. Se continuarmos a linha que sai do lado de fora de um dos pés (isto é, do ponto de vista do próprio corpo: o lado direito do pé direito ou o lado esquerdo do esquerdo) e vai pelo chão até o outro pé, teremos a palavra planeta, que inclui o corpo. Incluídos nesse corpo temos membros. Entre os membros pernas. Dentro das pernas pés. Nos pés dedos e nos dedos unhas. Mas se dissermos unhas podem ser das mãos. Se estiverem riscando um muro diremos atrito. Então podemos estar falando de fósforos, ou de pneus. De sexo, discussões ou condutores elétricos. Assim: Mesa e cadeira são duas palavras. Móveis é uma palavra só - Coisas que se movem. Mas não há palavra para dizer dois corpos encostados, ou uma mão segurando um punhado de terra ou duas mãos dadas com um tanto de terra entre elas; como há, por exemplo, a palavra jardim para designar o conjunto de terra e plantas; ou a palavra planta para expressar a soma da parte dessa parte do jardim que fica acima e da parte que fica abaixo da terra.. Com raiz bulbo folha talo ramo galho tronco fruto flor pistilo pólen dentro. Mas se não quisermos dizer planta podemos dizer pé. E a sola do pé chamaremos de planta. Sobre o solo. Assim como dizemos planta para o pé diremos palma. Para a mão. Folha da palmeira. E se não quisermos dizer planeta podemos dizer terra. Ou isso. Mas se ele não estiver por perto não podemos chamá-lo de isso.

Arnaldo Antunes. as palavras extraído do livro "as coisas". 2002